segunda-feira, 12 de julho de 2010

PLACEBO


O MISTERIOSO PLACEBO

COMO A MENTE PODE AUDAR A MEDICINA

O placebo é uma simples pílula confeccionada com substâncias inócuas, como amido, leite em pó, açúcar. Ela é administrada a doentes em lugar de medicamentos fortes, como a cortisona, antialérgicos e antibióticos. Só que os doentes não sabem disto. O extraordinário é que na maioria dos casos, o efeito terapêutico é o mesmo e, às vezes, até melhor. O placebo abre novas fronteiras para a medicina, provando que a mente humana, pode muitas vezes – e sem efeitos colaterais – substituir com vantagem os remédios tóxicos da farmacologia moderna.
Por Normann Cousins

Durante séculos os médicos tem sido forçados pelos próprios pacientes a manter o ritual das receitas. A maioria das pessoas parece achar que suas queixas não são levadas a sério se não recebem um pedaço de papel com letras mágicas que são o certificado de garantia de cura. A receita é a promessa de boa saúde. É o cordão umbilical psicológico que mantém um contato alimentador contínuo entre o médico e o paciente.
O médico sabe que a receita, mais do que as palavras nela contidas, é muitas vezes o ingrediente vital para habilitar o paciente a se livrar dos próprios males. Os remédios nem sempre são necessários. Mas a fé na cura é indispensável. O médico pode receitar um placebo nos casos em que para o paciente é mais útil sentir-se tranqüilo do que tomar uma pílula famosa três vezes ao dia.
O estranho placebo está dirigindo a ciência médica em direção a algo parecido com uma revolução na teoria e na prática da medicina. O estudo do placebo abre vastas áreas de conhecimento sobre a maneira como o corpo humano cura a si mesmo, sobre a misteriosa propriedade que tem o cérebro de determinar as mudanças bioquímicas indispensáveis para combater a doença. A palavra placebo vem do latim, de um verbo que quer dizer “agradar”. O placebo é, no sentido clássico, uma imitação de remédio – em geral um comprimido inócuo, feito de leite e açúcar, fantasiado de pílula – receitado mais com a finalidade de acalmar o doente do que satisfazer uma necessidade orgânica claramente diagnosticável. Nos últimos anos, o emprego mais comum do placebo tem sido para testar novos remédios. Os efeitos obtidos através do remédio testado são comparados com os obtidos pela administração de “imitação de remédio”, ou placebo.
Durante muito tempo os placebos foram desaprovados por grande parte dos médicos. É que, para muitos deles, o placebo tinha conotação de remédios falsificados, ou, “pseudomedicamento”. Pensava-se também que o placebo seria um caminho fácil para médicos incapazes de ter o trabalho e de gastar seu tempo no reconhecimento da causa real dos males do paciente. Hoje, contudo, o placebo – antes mal aceito – recebe séria atenção de professores de medicina. Investigadores, como o Dr. Arthur K. Shapiro, o falecido Dr. Henry K. Beecher, o Dr. Stewart Wolf e o Dr. Louis Lasagna, encontraram provas indiscutíveis de que o placebo pode não só tornar-se semelhante a um remédio poderoso, mas realmente agir como um remédio. Consideram-no não apenas uma ajuda psicológica para o médico no tratamento de certos pacientes, mas um autêntico agente terapêutico, que altera a química do corpo e ajuda a mobilizar as defesas do organismo no combate às perturbações ou doenças.
A forma como o placebo age no organismo ainda não foi bem compreendida. Alguns pesquisadores são de opinião de que o placebo ativa o córtex cerebral, o qual, por sua vez, liga-se ao sistema endócrino em geral, e às glândulas endócrinas em particular. Quaisquer que sejam os exatos caminhos através do corpo e da mente, já existem provas suficientes que demonstram que o placebo pode ser tão potente quanto a droga que substitui, e, algumas vezes, mais fortes do que ela.
“O placebo,  - escreveu o Dr. Shapiro no American Journal of Psychotherapy – pode ter efeitos profundos em doenças orgânicas e até mesmo em doenças malignas incuráveis”. Pensamos se este fato poderá explicar o enigma dos doentes de câncer que sararam tomando Letrile, substância que os principais centros de pesquisa consideraram sem qualquer valor medicinal.
Seria absurdo dizer que os médicos não devem receitar drogas farmacêuticas ativas. Existem ocasiões em que o remédio é indispensável. Mas um bom médico conhece todo seu poder. Um grande erro popular é acreditar que uma droga age como uma seta que pode ser dirigida a um alvo determinado. O efeito real é antes como o atirar de espinhos por um ouriço. A droga – ou o alimento – passa por um processo em que é subdividida pelo organismo para ser totalmente aproveitada.
Quase não existem drogas sem efeitos colaterais. E quanto mais célebre for o remédio – antibióticos, cortisona, tranqüilizantes, compostos anti-histamínicos, agentes antiinflamatórios, relaxantes musculares - maiores serão os problemas dos efeitos desfavoráveis. As drogas podem alterar ou reajustar o equilíbrio da corrente sanguínea; podem fazer o sangue coagular mais depressa ou mais devagar; podem reduzir o nível de oxigênio no sangue; podem estimular o sistema endócrino, aumentar o fluxo de áxido clorídrico no estômago; tornar mais lenta ou mais rápida a passagem do sangue pelo coração; prejudicar a função do corpo de fabricar sangue diminuindo a atividade da medula; reduzir ou aumentar a pressão sanguínea ou afetar a permuta de sódio-potássio, vital para o equilíbrio químico do corpo.
O problema apresentado por muitas drogas é que elas fazem isto independentemente da finalidade pretendida pelo médico. Ele precisa equilibrar o tratamento específico contra os perigos generalizados. Quanto mais poderosa for a droga, mais precário é o equilíbrio. Para complicar as dificuldades do médico, muita gente considera as drogas como se fossem automóveis que cada ano devem ter modelos novos e mais potentes. Muitos pacientes acham que os médico não está atualizado se não receitar um novo antibiótico ou uma nova droga milagrosa sobre a qual ouviu falar ou dela tomou conhecimento pelos jornais.

O remédio ideal para a cura do estresse

Por causa dos perigos reais associados às poderosas drogas novas, o prudente médico moderno aproveita sua liberdade de escolha aconselhando drogas fortes só quando houver absoluta necessidade, prescrevendo placebos ou nada quando elas não forem exigidas.
Um exemplo hipotético de como funciona o placebo é o do jovem homem de negócios que procura o médico queixando-se de fortes dores de cabeça e dores no abdômen. Depois de ouvir atentamente a descrição não só dos males, mas também de sues problemas, o médico conclui que ele sofre de uma doença muito comum no século XXI: estresse. O fato de não ser causado por germes ou vírus, não torna suas conseqüências menos sérias. À parte doenças graves, o estresse pode levar ao alcoolismo, ao vício de drogas, ao suicídio, ao rompimento familiar, ao desemprego, em formas extremas pode causar sintomas de “reação histérica” – um efeito descrito por Jean Charcot, professor de Freud. Os temores e preocupações do paciente convertem-se em sintomas físicos genuínos, que podem ser dolorosos e até causar paralisia.
Por meio de perguntas compreensivas, o médico ficará sabendo que esse homem está preocupado com a má saúde da esposa grávida e com os funcionários jovens recentemente contratados no escritório que parecem ter em mira o seu lugar. O médico vê que em primeiro lugar é preciso convencer o paciente de que nada está fundamentalmente errado com sua saúde, mas tem cuidado para não sugerir , sob forma alguma, que seus males não existem, não os levando a sério. Todo paciente tem tendência a acreditar que está sendo acusado de imaginar seus males, de fingir-se doente, se suas queixas são diagnosticadas como sendo de origem psíquica.
O médico sabe que o paciente, de acordo com as convenções, provavelmente ficará descontente se não receber uma receita. Mas também conhece as limitações do tratamento. Reluta em prescrever tranqüilizantes por causa dos efeitos prejudiciais nesse caso particular. Sabe que a aspirina aliviaria a dor de cabeça, mas complicaria o problema gastrointestinal, já que uma única aspirina pode causar hemorragia interna. Não aconselha digestivos porque sabe que as dores do estômago são provenientes de problemas emocionais. Então receita um remédio que não vai prejudicar o paciente e aliviará seus males. Diz eu este remédio lhe fará muito bem e que ele vai se recuperar completamente. A seguir discute longamente as possíveis maneiras de resolver seus problemas no lar e no escritório. Uma semana depois esse homem telefona para o médico para contar que a receita fez maravilhas. A dor de cabeça desapareceu, as dores abdominais diminuíram. Está menos preocupado com a saúde da esposa depois que ela consultou um obstetra e parece estar se dando melhor no escritório. Quanto tempo ainda precisa tomar remédio? O médico diz que a receita provavelmente não precisar ser repetida, mas é melhor telefonar se os sintomas reaparecerem.

A melhor receita é o próprio corpo

As pílulas “maravilhosas” naturalmente não eram mais do que placebo. Não tinham propriedades farmacológicas, mas agiram tão bem porque estimularam a capacidade de seu próprio corpo para se regularizar. As pesquisas mostram que 90% dos pacientes que procuram ajuda médica sofrem de desordens autolimitadoras, que se situam ao alcance dos poderes curativos do próprio corpo. O melhor médico - para o paciente e para a sociedade – sabe distinguir os pacientes que podem melhorar sem intervenções drásticas, daqueles que não podem em muito menor número. Não perde tempo e, quando há necessidade, mobiliza todos os recursos científicos disponíveis, mas é cauteloso com aqueles que necessitam mais do seu apoio do que de remédios, para não interferir no processo natural de recuperação. Para esses pode receitar um placebo, não só porque o paciente sente-se mais seguro com uma receita em seu poder, como porque sabe que o placebo realmente atende a uma finalidade terapêutica. O placebo é então, mais um tratamento do que uma pílula. O tratamento começa com a confiança que o paciente tem no médico e estende-se por todo seu sistema imunológico e curativo. O tratamento funcionou não porque existe qualquer magia no comprimido, mas porque o corpo humano é o melhor farmacêutico e a receita mais eficiente é aquela prescrita pelo próprio corpo.
O placebo mostra que não há separação real entre a mente e o corpo. A doença é sempre uma interação entre ambos. Pode começar na mente e afetar o corpo, ou começar no corpo e afetar a mente, por serem ambos servidos pela mesma corrente sanguínea. A tentativa de tratar doenças mentais como se fossem completamente independentes de causas físicas, ou tratar as doenças do corpo como se a mente não tivesse nenhum envolvimento, deve ser considerada arcaica à luz dos novos conhecimentos sobre a forma como funciona o corpo humano. Os placebos não agem em todas as circunstâncias. Acredita-se que as chances de bom êxito estão em razão direta da qualidade do relacionamento do paciente com o médico.
Extraordinário exemplo do papel do médico no bom funcionamento do placebo foi observado numa experiência com dois grupos de pacientes com úlceras hemorrágicas. Ao primeiro grupo, o médico informou que uma nova droga ia ser-lhes administrada e produziria, sem dúvida, bons resultados. Ao segundo grupo foi dito pelas enfermeiras que uma nova droga ia ser experimentada, mas seus efeitos eram desconhecidos. 70% das pessoas do primeiro grupo obtiveram alívio significativo, enquanto que apenas 25% do segundo grupo alcançaram igual resultado. O dois grupos receberam a mesma droga; um placebo.

A versatilidade do placebo

Quais os dados científicos reunidos sobre a eficiência do placebo?
A literatura médica no último quarto de século contém significativo número de casos. O falecido Dr. Henry K. Beecher, famoso anestesiólogo de Harvard, apresentou o resultado de quinze pesquisas feitas com 1.082 pacientes. Descobriu que, dentro de um largo leque de testes, 35% dos pacientes tiveram “alívio satisfatório” com o emprego de placebos em lugar de remédios usuais, para grande números de males, que incluíam fortes dores pós operatórias, enjôo, dor de cabeça, tosse e ansiedade. Outros processos biológicos e de desordens influenciadas pelos placebos, relatados por médicos pesquisadores, incluem artrite reumatóide e degenerativa, contagem de células no sangue, ritmo respiratório, função vasomotora, úlceras pépticas, hipertensão e redução espontânea de verrugas.
Um paciente que sofria do mal de Parkinson tomou um placebo como sendo um remédio e seus tremores diminuíram consideravelmente. Depois que os efeitos do placebo passaram, a mesma substância foi posta no seu leite sem o seu conhecimento e os tremores reapareceram.
Num grupo de pacientes que tomou placebo em vez de anti-histamínicos, 77,4% apresentaram sonolência, uma das características deste tipo de remédio.
88 doentes de artrite tomaram placebo em vez de aspirina ou cortisona. O número de pacientes que se beneficiou com os placebos foi aproximadamente o mesmo que o dos pacientes que tomaram remédios anti-histamínicos. A alguns dos doentes que não obtiveram alívio com os comprimidos de placebo, foram aplicadas injeções de placebo. 64% apresentaram alívio e melhora. Para o grupo todo, os bons efeitos incluíram não só o alívio da dor, mas também melhora do apetite, do sono, da eliminação e mesmo a redução do inchaço. A. Leslie relata que viciados em morfina tomaram placebos (injeções salinas) e não sofreram retrocessos até que as injeções foram suspensas.
O corpo médico do Instituto Nacional de Geriatria de Bucarest, Romênia, testou uma nova droga com a finalidade de ativar o sistema endócrino para melhorar a saúde, com vistas ao aumento da longevidade. Um total 150 pessoas de 60 anos, todas vivendo nas mesmas condições, foi dividido em 3 grupos de 50 pessoas. O primeiro grupo não tomou nada. O segundo tomou um placebo, o terceiro recebeu tratamento com a nova droga. Ano após ano os 3 grupos foram observados com referência à mortalidade e à morbidez. As estatísticas do primeiro grupo foram semelhantes às de outros camponeses romenos da mesma idade. O segundo grupo, o que tomou placebo, apresentou melhoras bem definidas de saúde e menor índice de mortalidade. O terceiro grupo, que tomou a droga, apresentou a mesma melhora sobre o grupo do placebo, que este sobre o grupo que não tomou nada.

Os limites entre medicina e feitiçaria

Muitos professores de medicina acreditam que a história da medicina é, na realidade, a história do efeito do placebo. Sir William Oesler salientou esse ponto quando disse que a espécie humana distingue-se das categorias inferiores pelo desejo de tomar remédio. Considerando a natureza das panacéias recomendadas no decorrer dos séculos, é possível que outro aspecto que distingue a espécie seja a capacidade de sobreviver aos medicamentos. Em várias ocasiões, em diferentes lugares, as receitas requeriam o uso de esterco animal, pé de múmia, serragem, sangue de répteis, esperma de sapo, olhos de caranguejo, raízes de mato, esponjas do mar, chifre de unicórnio, substâncias granulosas tiradas do intestino de animais de mama.
Examinando essa repugnante lista de poções que a seu tempo foram dignas de respeito tanto quanto qualquer remédio atual, o Dr. Shapiro comentou: “Fica-se conjeturando como os médicos conseguiram manter sua posição de honra e respeito através da história, receitando durante milhares de anos medicamentos inúteis e muitas vezes perigosos". A resposta é que os doentes puderam assimilar essas receitas nocivas juntamente com os males para os quais elas foram indicadas, porque os médicos lhes deram algo muito mais eficiente do que a droga: a forte crença na cura que a receita produziria. Eles procuraram o médico acreditando que seriam ajudados. E foram.
Algumas pessoas são mais suscetíveis à terapia do placebo do que outras. Por quê? Costumava-se acreditar que havia uma relação entre a alta sugestabilidade e a baixa inteligência e que as pessoas com baixo QI eram mais propensas ao reagir ao placebo. Esta teoria foi anulada pelo Dr. Gold, na Cornell Conference on Therapy, de 1946. Quanto mais alta a inteligência, disse o Dr. Gold, baseado em seus longos estudos, maior potencial de benefícios recebidos dos placebos.

Médico paciente: uma relação mágica

Em sentido mais profundo, poder-se-ia perguntar se é ético – ou, o que é mais importante, se é prudente  - para o médico alimentar a crença mística do paciente nos remédios. Cada vez mais os médicos acreditam que não devem encorajar os pacientes a esperarem uma receita, porque sabem como é fácil piorar a dependência psicológica e fisiológica dos remédios, ou mesmo dos placebos. Este pondo de vista contém o risco de o paciente ir procurar outro médico; mas, se muitos médicos quebrarem este ritual, há esperança de que o próprio paciente irá considerar a receita sob nova luz. O Dr. Richard C. Cabot escreveu que “o paciente aprendeu a esperar um remédio para seus males. Mas ele não nasceu com esta idéia... O médico é o responsável pela perpetuação das falsas idéias sobre a doença e a cura”.
Outro problema da ética médica surge porque muitos médicos acreditam que não se sabe o bastante sobre os efeitos do placebo na delicada estrutura e funções do sistema nervoso. Deveriam os benefícios do placebo esperarem até que se obtenha mais respostas?
Na profissão médica existem precedentes quanto ao uso de tratamentos que não são inteiramente conhecidos. O choque elétrico, por exemplo, está sendo empregado no tratamento de doenças mentais, apesar de não se saber exatamente o que acontece no cérebro com o impacto da alta voltagem. A droga mais usada no mundo é a aspirina; contudo, não se sabe porque ela diminui a inflamação. É verdade que não se sabe tudo sobre o placebo; mas sabe-se o suficiente para colocá-lo em posição de estudo na agenda médica e humana. Saber mais sobre o dom da vida não é apenas uma forma de satisfazer uma curiosidade ao acaso. No fundo é pra isso que serve a instrução. Não sabemos se o placebo – ou qualquer droga – iria muito longe sem o forte desejo de viver do paciente. Porque o desejo de viver é uma anela para o futuro. Abre o indivíduo para toda a ajuda que o mundo exterior pode dar, liga esta ajuda à capacidade do próprio corpo para combater a moléstia. Torna o corpo humano capaz de obter o máximo de si mesmo. O placebo representa um papel ao transformar a concepção poética do desejo de viver numa realidade física e numa força que comanda. Por fim, o grande valor do placebo é o que ele pode nos dizer sobre a vida. Como um acompanhante celestial, o placebo dirige-nos através dos caminhos desconhecidos da mente e nos dá um senso do infinito, muito maior do que se gastássemos toda nossa vida com os olhos pregados hipnoticamente ao gigantesco telescópio de Monte Palomar. No fim, o que concluímos é que o placebo, na realidade, não precisava existir e que a mente pode prosseguir sua missão difícil e maravilhosa sem a ajuda de pílulas.
O placebo é apenas uma coisa tangível, tornada essencial numa época em que existe uma insatisfação diante dos intangíveis, uma época que prefere pensar que todo efeito interno tem uma causa externa. Já que tem tamanho e forma e podemos segurá-lo em nossa mão, o placebo satisfaz a ânsia contemporânea por mecanismos e respostas visíveis. Mas o placebo desaparece diante de um exame mais minucioso, dizendo-nos que não pode aliviar-nos da necessidade de pensarmos profundamente em nós mesmos. O placebo, é então, um emissário entre o desejo de viver e o corpo. Mas é um emissário substituível. Se pudermos libertar-nos dos tangíveis, poderemos ligar a esperança e o desejo de viver diretamente na capacidade do corpo para enfrentar as grandes ameaças e desafios. A mente pode levar a cabo suas funções e poderes sobre o corpo sem a ilusão da intervenção material. “A mente, disse John Milton, pode por si mesma fazer um céu do inferno ou um inferno do céu”.

O segredo do placebo

A ciência está criando termos exóticos como biofeedback para descrever o controle da mente sobre o sistema nervoso autônomo. Mas as etiquetas não tem importância; o que importa é saber que o ser humano não está fechado dentro de limitações. A procurada perfeição não é a mais alta manifestação de um grande propósito.
Há uns vinte anos, tive a oportunidade de observar o trabalho de um médico-feiticeiro africano, ao lado do Dr. Schweitzer. Para alguns pacientes, o feiticeiro apenas punha ervas num saco de papel e dava instruções sobre seu uso. Para outros não dava ervas; enchia o ar com encantamentos. Para uma terceira categoria, apenas falava em voz baixa e apontava para o Dr. Schweitzer. De volta à clínica, Dr. Schweitzer explicou que as pessoas com queixas generalizadas recebiaam as ervas; o segundo grupo tinha males psicogênicos e era tratado pela psicoterapia africana. O terceiro grupo, com problemas físicos, precisando de cirurgia, era encaminhado ao Dr. Schweitzer. Quando perguntei como explicava as curas feitas pelo feiticeiro, ele respondeu que eu estava pedindo a divulgação de um segredo que os médicos trazem muito bem guardado desde o tempo de Hipócrates. “Mas vou lhe contar”, disse, com o rosto iluminado pelo leve sorriso: “O feiticeiro tem êxito pela mesma razão que o resto de nós. Cada paciente traz em si seu próprio médico. Eles vêm à nós sem saber a verdade. Nós agimos da melhor maneira que podemos, dando ao médico que mora em cada paciente a oportunidade de fazer o seu trabalho”. Este é o segredo: o placebo é o médico que reside em nós.

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